Sua vida era medo.
Medo do silêncio, do frio da noite, das casas que pareciam grandes portais para um mundo novo, dos carros, das ruas, medo da sua história permanecer a mesma.
Bernardo desfazia das malas suas lembranças mais remotas e descobria que o medo era uma forma de se desdizer.
Em cada canto da casa havia ele. Havia os outros. Resquícios da memória que não o deixavam viver em paz. Mas viver em paz era algo que realmente ele não queria, pois o faria preso. Morrer em paz também.
E isso dava medo.
As tentativas de libertar sua alma do medo haviam sido inúmeras. Na rua, em casa, no alto de um prédio, num vidro de calmantes. Nada disso tinha surtido efeito. Bernardo tinha medo de se libertar. Pensava se eu quiser, eu faço. Ei! é isso realmente que eu quero? As frustrações eram muitas, e Bernardo sempre se arrependia de tentar o nada absoluto.
Ser humano é muito difícil. Bernardo ouvia o comentário no ônibus e via sua história como filme entrecortado por poucos momentos de alegria - felicidade não, era muito.
Sua vida era o que se convinha chamar vida boa. Conduta impecável, roupas sempre bem passadas, comida saudável, competência profissional irreparável.
Viver e ser. Duas palavras que não se encaixavam num mesmo contexto. Ou se vive, ou se é. É? Será assim a vida? Toda essa "grande maravilha", todas essas preocupações, todas as decepções... pra morrer e perceber que não se viveu o bastante? Pra cair em si no momento final e ver as inúmeras possibilidades que eu poderia ter sido e que só fui uma delas? Por que uma só apenas? Por que não uma a cada momento? Como as máscaras de todos os dias... podemos ser vários em um. Somos. E não somos. Estamos sendo apenas, conscientes de que nunca seremos.
Um som surdo ouviu-se.
Bernardo.
A vida.
A morte.
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Um comentário:
nascer... viver... morrer... renascer(?)
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