Meia noite. Meia vida.
As mãos parecem
as mesmas.
Sujas e feias,
como se embebidas
de um suor entranhado
há anos.
Os olhos parecem
num brilho sem luz,
na umidade seca
de um verão que já passou.
A boca.
Os mesmos lábios, porém
diferentes.
O sabor é amargo
como a vida, víbora que mata
lentamente...
O cheiro sentido já não agrada
como antes.
O rosto marcado
por um passado que não passa.
As vozes parecem familiares.
Entanto calam quando
digo que não sou
quem eu procuro,
que não acho
o self que dizem ser meu.
O gosto da angústia
se aprofunda
quando o relógio
com suas pernas ambulantes
avisa que o tempo
já passou,
que já é meia noite
e que eu sou
apenas uma...
Não me percebo da forma
que dizem me ver.
Cuidado já não cuida.
O tempo todo já não é
todo o tempo.
E eu fico.
Mantenho-me
como múmia.
Que é pra ver se um dia
renasço.
No mesmo corpo.
Na mesma vida.
No mesmo eu.
Na mesma.
Aniversário.
Comemorar o quê?
O vazio de mim?
A falsidade dos que me enchem de congratulações?
E eu?
Quando vou me comemorar?
Morar dentro de mim
e não querer fugir de casa?
É meia noite.
Mas que fique noite toda.
Para que eu possa tê-la
para sempre
em mim.
[31/01/2006]