sábado, 17 de março de 2007

pseudoethos

Meia noite. Meia vida.

As mãos parecem
as mesmas.
Sujas e feias,
como se embebidas
de um suor entranhado

há anos.

Os olhos parecem
num brilho sem luz,
na umidade seca
de um verão que já passou.

A boca.
Os mesmos lábios, porém
diferentes.


O sabor é amargo
como a vida, víbora que mata
lentamente...


O cheiro sentido já não agrada

como antes.

O rosto marcado
por um passado que não passa.

As vozes parecem familiares.

Entanto calam quando
digo que não sou
quem eu procuro,
que não acho
o self que dizem ser meu.

O gosto da angústia
se aprofunda

quando o relógio

com suas pernas ambulantes
avisa que o tempo
já passou,
que já é meia noite
e que eu sou
apenas uma...

Não me percebo da forma
que dizem me ver.

Cuidado já não cuida.

O tempo todo já não é
todo o tempo.

E eu fico.

Mantenho-me
como múmia.
Que é pra ver se um dia

renasço.
No mesmo corpo.
Na mesma vida.
No mesmo eu.
Na mesma.


Aniversário.
Comemorar o quê?
O vazio de mim?
A falsidade dos que me enchem de congratulações?

E eu?
Quando vou me comemorar?
Morar dentro de mim
e não querer fugir de casa?

É meia noite.

Mas que fique noite toda.
Para que eu possa tê-la
para sempre
em mim.

[31/01/2006]

Um comentário:

Júlia Rocha disse...

caralho, minha filha... 8|

ai.