sexta-feira, 2 de novembro de 2007

morna angústia

tomava banho sem pressa. deixava a água morna escorrer sobre seu corpo. lembrara-se de que não conseguiria, mesmo com toda vontade, chorar. a água do chuveiro trazia um quê de lágrima, e então não precisaria gastar as suas. mas a vontade era grande. lembrara-se da noite. aquele carinha no bar. logo, logo, os dois na cama...
pernas, afagos, sussurros, gemidos... tudo num silêncio mórbido que a fazia lembrar da água morna do chuveiro. e a sua escorrendo, entre as pernas...
a recordação da noite trazia a si a lembrança de uma dor, causada por uma escolha que havia feito momentos antes de adentrar aquele bar.
tomou uma, duas doses de vodca. até que o viu de longe e pensou ser ele.
o primeiro que a tomaria... tinha medo, mas já havia decidido. não iria voltar atrás... estava cansada de sempre fazer isso, de sempre se arrepender.
a água parecia ter esquentado mais... abriu mais um pouco o chuveiro e lhe veio a lembrança do não.
sempre o não fazendo parte de si... por isso as voltas atrás... por isso sempre o arrependimento na iminência do momento e a volta pra casa aos prantos por não conseguir.
agora era sem volta.
ainda molhada, pegou o telefone e pediu um jantar para uma pessoa. conferiu se tinha trocado. não tinha. pediu troco pra cinqüenta. ainda tinha o cheiro do perfume dele...
depois de um tempo, comeu e foi deitar.

ele, finalmente em casa. tirou o tênis, deu um suspiro profundo... não acreditava que havia conseguido.
ainda estava quente... ainda sentia o cheiro que exalava dela quando chegou mais perto. seu corpo ainda latejava do prazer que sentira há pouco. cuidava que ninguém desconfiasse. no banho, lembrava-se.
foi cheio de intenções para aquele bar. pretendia mesmo achar uma mulher. daquelas bem gostosas mesmo. pra sugá-la como nunca fizera antes a ninguém. e encontrara... aquela, a que estava bebendo vodca pura no balcão. parecia ser uma mulhar decidida, vivida e discreta. era exatamente assim que ele queria.
olhou-a e chegou perto. pouco mais de vinte minutos de conversa e já estavam no carro dele, seguindo para um lugar mais calmo.
a água fria caía sobre suas costas e o fazia lembrar do que acabara de fazer... viu que estava tremendo. não de frio, mas de angústia. seu instinto de macho o fizera agir... e só agora se dava conta de que não era uma mulher gostosa, decidida, vivida e discreta que queria.
descobriu que não era aquela a mulher que queria.
enxugou-se, vestiu uma bermuda e deitou-se ao lado dela. a que ele queria verdadeiramente. e prometeu a si mesmo não fazer mais aquilo em nenhuma circunstância.

ela, morna. ele, angustiado.
os dois lembraram-se, cada um na [sua própria] solidão da madrugada, da breve conversa que tiveram depois da pequena morte na cama. ele puxara assunto:
- olha, quero que saiba de uma coisa: é minha primeira vez aqui, assim... e queria que você não dissesse a ninguém..
- é? tá bom. não se preocupe - disse ela, como quem não estivesse vendo nada demais - mas como assim 'asssim'?
- assim, com alguém que conheci há umas horas...
- confesso. é minha primeira vez também...
- sério?
- sério...


a última imagem que vinha à cabeça deles era a do dinheiro em cima da cômoda. para ela.

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