Naquele dia fazia três anos daquele encontro à toa, no ônibus.
Pedro resolvia com os amigos as fantasias que usariam naquele carnaval.
- É sério, Lucas... quero sair de zumbi não... tá um calor dos infernos! Especialmente no galo! Ei Bruno, paga aí a minha que na volta eu pago a tua.
- É mesmo, Lucas... é melhor a gente sair de bermuda só... de surfistas! - disse Bruno, enquanto pagava sua passagem e a de Pedro - tá beleza, tô pagando...
- Pô, velho! Aí é lasca né, Pedro?! Quando eu arrumo a fantasia, vocês vem com fuleragem! A gente combinou o quê, Bruno? Não foi isso?
- É, Lucas, mas tá muito quente!!
- Tá beleza... mas de surfista eu não saio! Coisa mais clichê...
- Eu queria saber o que, de certa forma, não é clichê no carnaval...
Enquanto passava pela catraca do ônibus, Pedro percebia que alguém o olhava. Sabe aquela sensação de estar sendo observado? Pois pronto.
Ela o olhava fixamente. Desde que o tinha visto, não conseguia tirar os olhos.
Os amigos logo perceberam e começaram a tirar onda dele:
- Meniiiiino, eu acho que vou pegar esse ônibus todo dia a essa hora agora...
- Fala não!! Tá bom, Pedro... desisto de sair de zumbi... tá muito calor mesmo... especialmente agora!
- Ahahahaahahahhaahahahahhah!!!
E quem disse que ele havia escutado algo? Cada momento em que a olhava era como se muitos anos de vida passassem por ele. Uma sensação de já ter vivido isso em algum momento da vida... e de ter vivido muitos momentos assim, extasiantes...
- Como é teu nome?
- Marina...
- Oi, Marina...
- Oi, Pedro...
- Mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm - os amigos falavam em uníssono, e ele nem, nem...
Passou.
- Boooooooora, Pedro!!!!!
- ...
- Pedro, porra!!
- Eu tenho que ir agora...
- Quando eu posso te ver de novo?
- Não sei, eu não tenho costume de pegar esse ônibus...
- Vai pro galo sábado?
- Vou sim, mas vai ser praticamente impossível a gente se encontrar lá, né?
- É mesmo...
O ônibus parado, só esperando eles descerem...
- Olha, eu sempre fico do lado do palco principal, na Guararapes. Do lado mesmo. O esquerdo, de quem olha de frente pro palco. Passa lá...
- Eu duvido te encontrar...
- Passa, passa... garanto que me encontra...
De repente, o motorista:
- Marina, porra! Sacanagem! A gente vai se atrasar!! Libera esse cidadão aí logo pra ele descer, que a gente precisa cumprir horário, minha querida! No galo vocês se bicam, se esporam, fazem o que quiser... mas agora não...
- Desculpa, seu Ricardo... tchau...
- Desculpa, motô... já tô descendo... fui... Ei, não esquece! Do lado do palco principal!
- Táá!!!
Todo ano era assim. Havia três anos. Todo carnaval. Sábado de Zé Pereira, Galo da Madrugada. Ao lado do palco da guararapes, no meio da muvuca. Todo ano.
Ela, cobradora.
Ele, estudante.
Eles, de passagem.
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
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Um comentário:
Tocante.
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